Era uma tarde chuvosa de um dia nublado. Era sábado e, como não tinha que trabalhar nesse dia, estava completamente entregue ao ócio. Numa tarde dessas, com cheiro de chocolate quente e pedindo uma boa comédia romantica cheia de esteriótipos pra entreter sem fazer pensar, eu fiz justamente o que não estava no programa: resolvi pensar. Nem foi bem uma resolução, minha resolução do dia era descansar (bem mais sensato), mas todas as superficialidades que eu tinha planejado fazer me pareciam muito mais fúteis e descabidas do que de fato eram. Enquanto a tv passava toneladas de propagandas ridículas de produtos ainda mais ridículos eu me sentia cada vez mais distante da realidade sólida e confortável da minha sala. As vozes aleatórias que discursavam a respeito da melhor marca de sabão em pó já estavam inaudíveis e eu imersa demais em mim mesma para voltar atrás. Sempre tenho medo quando meus pensamentos me transportam a essas obscuridades dentro de mim. Tenho medo do medo que está sempre lá, frio e severo, instalado nas minhas veias. E também desse susto de perceber que não tenho nada de resistente e duradouro, que tudo que há dentro de mim é de uma fragilidade irritantemente previsível. O ambiguo disso é que (acho) é dessa fragilidade que vem qualquer coisa que se possa chamar de forte em mim. Que talvez do inconformismo ante a minha própria fraqueza diante do mundo venha as pequenas coragens que dia após dia me fazem me sentir mais como uma pessoa do que como uma passiva princesa dos sonhos de qualquer príncipe ou sapo. Mas essas coragens são demasiadamente tímidas pra mudar totalmente a minha relação com o universo. E continuo a me sentir repugnante. Repugnável a partir dos meus próprios ideais. Aliás, que ideais seriam esses? De que vale de fato um ideal? Ora, nem Platão chegou ao mundo das ideias. Ideal é tudo aquilo que não existe. Bem sabemos que as coisas que não existem são as mais belas, que nos arrancam suspiros e produzem delírios apaixonados, mas são simplesmente inatingíveis. Guardam pra si mesmas a glória de serem imaginadas e sonhadas pelas pessoas que, entediadas com uma existência patética, buscam dar algum sentido à vida, as coisas que existem apenas por serem pensadas. Fodam-se os ideais. Eles não existem. Eu aprendi a amar o chão. É nele que eu piso, sento, deito, como. É ele que existe. E é nele que eu existo. Não existo como uma mulher forte e idependente, não existo como uma princesa formosa e pacífica. Existo apenas como meu eu fragmentado que não é nada. Às vezes assumo, com prepotência é verdade, que sendo nada é que eu sou tudo. Sou muito mais que as feministas fortes e vorazes e que as princesas frágeis e em constante perigo. Elas representam muito mais um papel do que existem, elas são ideia. Elas são o céu. E eu sou só o chão. Pisada e amassada, esquecida sob a poeira dos sapatos dos passantes, mas eu sou mulher e não elas. Sou eu que existo. Forte e fraca, tão vazia de grandes virtudes, mas cheia de pensamentos que assim, devastadores, me revelam sobre mim a verdade que eu preferia não saber. Que não sou sonho, sou real. Sou chão, sou pó. Mas sou isso mesmo, e é isso que continuarei sendo. Sou real: eis a minha salvação e perdição. Sim, eu existo. Viu só? É por isso que não gosto de pensar. Descubro em mim as estranhas e perturbadoras contradições de um sujeito indefinido que se define constantemente pelo que não é. A essa altura, o filme já estava acabando. Mas não importa, ele também era ideia. Cheio de altos vôos e felizes para sempre. Eu sou gente. Eu piso - com os pés mesmo - no chão duro e felicidade são momentos e não um estado permanente. Eu não sou para sempre, mas eu existo. Não, eu não sou ideia. -
En L'air
Porque algumas vezes a verdade nua e crua não basta. Nesses momentos, quando é impossível contentar-se com o silêncio, as palavras me resgatam, me permitem voar - ainda que meus pés não saiam do chão.
sexta-feira, 16 de março de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Feliz feliz novo!
Um pouco atrasada pra desejar feliz ano novo, eu sei. Mas restam 363 dias que devem ser felizes ainda, não? Desejo a vocês, hoje no dia 2 - irremediavelmente atrasada pra um Feliz 2012!? espero que não - 363 dias novos. Porque a renovação pode ser constante, certo? Aliás, renovação sequer depende dos números no calendário. A renovação pode acontecer no momento que desejarmos, em 1º de janeiro, 15 de julho ou 31 de dezembro - pra quê esperar virar o ano? o que a meia noite realmente significa? - basta haver a força e vontade. Portanto, desejo a vocês um feliz 2012, doze felizes meses novos, muitas felizes semanas novas, vários felizes dias novos e infinitos felizes segundos novos. Porque, apesar de tudo, o que mais importa é o feliz. Então desejo à vocês principalmente o feliz. Que sejam felizes apesar de qualquer problema ou adversidade. Que sejam felizes nas escolhas e decisões. Que sejam felizes a cada renovação. E que as renovações sejam constantes e coloridas. Leves e bonitas. Trazendo sempre um novo sorriso. Eles sim importam, então posso desejar felizes novos sorrisos também. E que sejam muitos. Enfim um feliz feliz novo à todos!
sábado, 10 de dezembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
sábado, 19 de novembro de 2011
Nocaute
Tudo porque você é assim, feito de distância e silêncio. Minha matéria é outra, sempre foi. E seus silêncios machucam. Eu sei que você sabe. E a distância? Mais cruel que porrada de boxeador. Eu não luto. Só apanho. Justamente porque a minha matéria é outra. Sou feita de outra coisa. Nada tão sólido quanto a sua distância. Nada tão forte quanto o seu silêncio. Sou matéria esparsa e desconexa. Sou de carinho, abraço e beijo. Sou de fraqueza e humanidade. Por isso a distância me nocauteia e o silêncio berra em meus ouvidos. Se você povoasse só os mais belos sonhos... mas está também nos terríveis pesadelos. Um iceberg que afunda o meu Titanic. Não quero a sua solidez nem a sua força. Quero você sem as luvas. Sem o ringue. Sem o soco. Quero você sem as máscaras, sem o medo de ser fraco. Quero que você apenas seja humano. E, sendo humano seja meu. Mas a sua distância e o seu silêncio continuam nas porradas e nos berros. Parece até que você me odeia. Mas eu não sei lutar. Meus sentimentos são indomáveis e me deixam assim, nua de toda força e desprovida de qualquer solidez. As luvas nem me cabem. Não consigo sustentar nem a distância nem o silêncio. Então apanho. Te amo. Do meu jeito, nada sólido nem forte. Um amor fluído que eu sequer compreendo, só sinto. Mas te amo. E por isso, só por isso, apanho.
Imagem tirada do weheartit.com.
sábado, 5 de novembro de 2011
Todo mundo é um abismo
Precipito-me em mim mesma. No que sou, no que quero, no que preciso. Ou no oposto. Precipito-me em meu eu. (que eu?) Mais um ou dois passos e caio no abismo. Já dizia Woyseck “todo mundo é um abismo”. E é verdade. Todo mundo. (todo mundo?) Meu eu é um abismo. Abismo esse que se impõe à minha frente. E eu? Precipito-me! Precipito-me ao não conhecer a essência do meu próprio eu. (quem conhece?) Não, meu eu não é um abismo. É uma sucessão de abismos. Quando acabo de cair em um lanço-me ao seguinte. “E se a gente cai? No abismo.” Não se preocupe, querido Woyseck, sempre existe um abismo à frente.
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